A relatividade explica 8 horas de set do Hernan Cattaneo no Warung

Confira como foi a noite e como ela tem sido apontada como a data do ano
Publicado em: 02/10/2016 - 18:37 | Atualizado em: 18/05/2017 - 11:28

O ano de 2016 tem sido especial para os frequentadores do Warung Beach Club, a possível alta do dólar tem feito a casa voltar as origens estabelecendo line-ups mais enxutos no qual os artistas tem a oportunidade de mostrar melhor suas potencialidades. A ordem da vez é o ''longset'', onde headliners assumem por 4 ou 5 horas em média. Claro, se compararmos com a primeira década de vida do Club - onde a vontade do DJ é quem determinava a hora de terminar – torna-se um paralelo injusto, porém, é o que a lei nos permite hoje. 

Ainda assim, existem duas noites no ano que tem resistido ao longo do tempo com o DJ se apresentando por mais tempo que a média e fazendo nos lembrar cada vez qual é a verdadeira essência do Templo. Assistir ao clássico extended set de Hernan Cattaneo no Warung se tornou uma obrigação para qualquer apreciador de música eletrônica conceitual. É um consenso até entre os que não aderem a sonoridades mais introspectivas de que todos devem ter essa experiência ao menos uma vez na vida. Assim como em 2015, a semana da pátria foi o período escolhido para esse encontro, onde brasileiros e argentinos se somam para dividir sentimentos no pistão do Club. Se todos os anos temos esse show ''all night'' de Hernan, por que o de 2016 se tornou especial? Bem, na semana da festa foi atendido a um velho pedido dos que acompanham a mais tempo a carreira do argentino. ''From Midnight untill the end'', foi com esse anuncio que o Club já prevendo algo histórico deu a notícia ao público. Histórico antes de acontecer porque jamais um artista principal - pelo menos não que eu lembre - deu start nesse horário e tocou até o fim, e mais, se tratando do símbolo cultural que HC se tornou para o Club, não seria prepotência declarar que guardaríamos para sempre na memória. 

Se sete horas de set já seriam de lavar a alma, imaginem oito!! Como Hernan conseguiu mais uma hora, a forma que comandou a noite e como ela tem sido apontada como a data do ano, é o que vou tentar contar neste review, 10 de setembro de 2016.

Às 22h30 estava no Garden começando a encontrar amigos para quebrar o gelo da expectativa pra noite, aproveitando, matei a curiosidade em ver as jovens apostas da DOC Records.  Liderados por Gui Boratto, o duo Shadow Movement entregava uma sonoridade de muita personalidade, ritmo certo pra hora e sem perder suas características obscuras, é um projeto pra se observar com cuidado. Faltando 30 minutos para meia-noite nos dirigimos ao Inside onde Leozinho jogava um house de primeira linha, o esperado para um DJ do seu nível. A pista estava cheia e a parte da frente tomada de argentinos como todos os anos. O roteiro quase que sagrado do aparecimento de Hernan na cabine até o inicio de seu set eu já mencionei outras vezes em reviews, todos sabem como funciona, antes mesmo do horário o Maestro já estava mixando e a pista pronta para se entregar. Pensei bastante em como descrever a construção de set de Hernan neste ano e cheguei a conclusão que colocar de forma separada em 3 fases seria o ideal para melhor compreendermos, ou ao menos chegar próximo a isso.

Warm-up para si mesmo. 

Primeiro, existem DJs e DJs e existe Hernan Cattaneo. Aceitar o desafio de assumir a pista enquanto o som ainda nem está trabalhando no seu melhor é algo que poucos se sujeitariam. Ele adora jogar devagar, encara a possibilidade de preparar a pista como uma grande oportunidade, é como se você se preocupasse tanto com a partida de futebol que viesse cortar e molhar a grama antes de entrar em campo, pra depois poder ganhar de goleada, é claro. Ele manteve suas duas primeiras horas em uma consistência impressionante, quem já se aventurou atrás de um mixer sabe o quanto é difícil se manter em um ritmo, escolhendo músicas com o mínimo de breaks longos possíveis, fez isso de forma brilhante até culminar na música que acredito ter sido o primeiro pico emocional da noite, ‘’Secret Encounters’’ nova obra-prima de Guy Gerber. Ela sinalizava que o ritmo estava subindo. Hernan parte do pressuposto de que se deve segurar a onda o tanto quanto for possível na primeira parte, pois a partir do momento que coloca uma música de maior intensidade, jamais poderá voltar atrás, então ela deve acontecer no momento certo. 

Buraco negro e riffs de uma só nota

Até as quatro horas Cattaneo balançou a pista de um lado ao outro alternando entre momentos emotivos pontuais como ‘’The Bar Tender’’ de Seth Schwarz & Be Svendsen (Dark Soul Project Edit), levadas progressivas tribais como ‘’Amazonia’’ Oniris e de baixos sintetizados longos como em ''Dodge'' de Monkey Safari, remix do Victor Ruiz que fez todos vibrarem. 

É intrigante a maneira que ele consegue explorar o sistema de som do Warung, a música parece fluir através de seu corpo como uma extensão de si mesmo. Cada vez mais os graves iam se comprimindo até um momento em que a pista toda se encontrava dentro de um colisor de partículas, os elementos sonoros dançavam entre si somados a feixes luminosos que por momentos te davam a sensação de câmera lenta. ‘’Systematika’’ de Guy Mantzur & Roy Rosenfeld marca um ponto explosivo e um golpe fatal. Em meio a tanta euforia, e como de costume, me via buscando referências para tentar entender o que estava ouvindo e diante das bandeiras da argentina sendo levantadas pelas pessoas em completo estado de plenitude, lembrei de outro gênio, só que das guitarras. Diz a lenda que Jimi Hendrix tecia uniformemente acordes com trechos de uma só nota e usava sequências que não aparecem em nenhum livro de música. Seus riffs eram uma viagem elétrica sem fim até as encruzilhadas, onde ele humilhava a si próprio. No auge, Hernan solta riffs de um grave demolidor e mostra porque é um DJ único, adianta as linhas de onde normalmente as músicas são feitas para mixar tecendo uniformemente viradas de um techno gravitacional obscuro e tão denso que me fez entrar em um colapso estelar. 

A física moderna de Einstein diz que espaço e tempo não são absolutos e sim relativos entre si, dentro dele estrelas nascem e morrem através de um colapso onde tudo se concentra e acaba em um único ponto, que por sua vez se transforma em buracos negros. Esses, tão densos que engolem tudo ao seu redor e nem mesmo a luz é capaz de escapar. Às 5h senti minhas pernas serem puxadas como se estivessem caindo dentro de um desses buracos, foi como se a força de maré estivesse me carregando e dividindo-me ao meio, eu definitivamente amo essa parte da noite.

Renascendo no futuro

Não preciso dizer o quanto especial é o amanhecer na Brava, vencemos o clima soturno da noite para entrar em uma nova fase à espera do sol, ele simboliza a identidade do templo ao mesmo que estampa a bandeira da argentina, essa dualidade quase mitológica estava presente trazendo energia e acredito que não só comigo, mas todos ali também receberam um novo folego para mais algumas horas de música. 

Essa transição de volta a sonoridades sentimentais acontece no vocal de Moderat em ‘’Running’’ para ‘’Trigonometry’’ de Sasha, uma das músicas mais aguardadas do momento. Olhando para a última hora temos uma sequência que renderia uma compilação, ouvir a voz única de Dave Gahan ecoando pela pista em ‘’Only When I Lose Myself’’ era um momento esperado por muitos a anos. Às 7h horas Hernan não sinaliza querer parar, seu ritmo intenso em cada mixagem e plácido na escolha das músicas é o mesmo desde o primeiro minuto. Olhei ao redor me perguntando, como ele pode se manter por tanto tempo com a mesma dedicação infinita à pista de dança? De pronto alguém me respondeu o que eu já sabia, mas precisava ouvir de outra pessoa: ‘’É apaixonado pelo que faz’’.

Já passavam de 7h20 quando o toque celestial de ''Forme'' começou a surgir, essa música de Gill Norris com remix de Guy J marcou a manhã de 2011, que coincidentemente ou não tinha sido a última vez que o sol tinha subido com força frente a frente com o maestro, essa escolha nostálgica novamente foi ideal para o fechamento do set. Entre aplausos sinceros ''Snooze For Love'' entra como a música de despedida, esse lindo retoque de Dixon venceu-me, ainda assim mais dois suspiros entram no jogo, a essa altura ninguém iria mais pedir pra parar, ''Oracle'' de Sebastien Leger seguida de uma música que já nasceu clássica, ‘’Nana’’ de Acid Pauli finalmente trouxe o tom dramático do fim. Depois de ‘’Eight hours of magic’’ como sugeriu Hernan em sua página do instagram mais tarde, o sentimento ao sair do templo era de que tinham se passado décadas do lado de fora, como se tivéssemos atravessado o universo até um outro momento no futuro.

Alguns pensadores como Ray Kurzweil apontam que à nossa próxima revolução tecnológica acontecera na virada do século, onde o conhecimento humano estará tão avançado que homem e máquina literalmente irão se fundir e então poderemos se conectar com tudo a nossa volta, criando assim o que chamam de singularidade. Ao que me parece, tem um argentino que já alcançou.

Imagens: Gustavo Remor

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