Conversamos com Ney Faustini às vésperas de sua apresentação no Dekmantel Brasil

O artista comentou sobre suas influências e o que está preparando para esse importante momento da sua carreira
Publicado em: 02/02/2017 - 13:14 | Atualizado em: 02/06/2017 - 00:04

Sem dúvidas, uma das grandes atrações do Dekmantel Festival é o paulista Ney Faustini, que em meio a tantos nomes importantes tem seu lugar de destaque e carrega consigo uma nação que ama o seu trabalho. Ele é aquele tipo de artista singular, que não encontramos nas prateleiras de lojas comuns, pois seu trabalho é denso e cheio de camadas a serem desvendadas.  

 

 

Em todo tempo que o acompanho já apreciei vários momentos incríveis. Já pude ver seus belos edits de clássicos brasileiros e internacionais, influências que vão do hip-hop ao jazz, como também sets de house, techno, ou tudo misturado, sem prender-se a uma aparência. Embora isso devesse soar como comum, graças à nossa cultura extremamente rica, não é o que acontece. Poucos artistas conseguem extrair leveza e originalidade nesse contexto, por isso ele está onde está: a poucos dias de abrir o palco principal do Dekmantel Festival em sua primeira edição em terras tupiniquins.

 


Para conhecê-lo melhor, o convidamos para um bate papo sobre a sua carreira e o que ele está preparando para esse momento único.

1 - Olá, Ney! Primeiramente obrigado por aceitar o convite e responder algumas perguntas para o detroitbr. Nosso coletivo tem uma relação muito intima com você e acompanha sua carreira diariamente, e mesmo assim somos pegos de surpresa com freqüência diante de seu dinamismo musical. Como é pra você organizar todo esse conteúdo fazendo como  que cada uma de suas apresentações soe como se fosse a primeira? Como que funciona o ritual de cada apresentação? Você pesquisa sobre os locais que você vai tocar para preparar da melhor forma? Explique um pouco pra gente sobre isso.

 

Prazer em falar com vocês! Bom, acredito que toda gig merece uma atenção e preparação bastante específica. Acho importante, antes de tudo, investir tempo em pesquisa e conhecer bem os discos e as músicas que você tem pra, a partir disso, analisar o conceito da festa, o horário, ordem do line up, etc. Na minha residência no D-Edge, por exemplo, gosto igualmente de fazer warm-ups ou de encerrar a noite com sets de 5h, o que obviamente exigem preparações diferentes. Separo sempre uma bag de discos e tenho conseguido me encontrar cada vez melhor nas pastas dos meus pen drives, que tem de tudo, do techno à mpb. Acho que montar repertórios de estilos distintos torna-se natural quando você sabe exatamente o que quer ter gravado ali. Gosto de encarar situações distintas e de encontrar caminhos para que eu possa tocar o que eu quero, de acordo com cada uma delas. Arriscar músicas e seqüências inusitadas pode não ser o caminho mais garantido, mas é sempre divertido, mesmo quando alguma coisa não funciona tão bem.

 

2 - E para o Dekmantel Festival, como está sendo sua preparação? Que surpresas podemos esperar?

 

Apesar da ansiedade, comecei a pensar mais na apresentação no Dekmantel só nos últimos dias. É um festival com o qual já tenho uma identificação musical muito natural, mas tenho consciência da responsabilidade que é abrir o palco principal. Apesar de ser um set de 1h30, estou separando uma quantidade de músicas que renderiam um long set rs… Existe a necessidade de se adaptar a situação, e as pessoas estarão chegando, tendo o primeiro contato sonoro e visual com tudo. Eu tenho uma idéia do caminho que gostaria de seguir, mas só vou saber mesmo quando eu ver o público ali, e como estarão reagindo aos primeiros sons, pra tentar construir alguma coisa que faça sentido pro momento. Prefiro não adiantar nada, mas venham de ouvidos abertos rs…

 

3 - Embora você tenha experiência, o fator psicológico pode ser um aliado ou não em um momento como esse. Como você faz sua preparação psicológica? Mesmo em todos esse anos ainda rola aquele tradicional “frio na barriga”? Em algum momento de sua carreira isso o atrapalhou? Fale um pouco como é lidar com esses momentos importantes!

 

Eu acho que o “frio na barriga” é parte importante disso tudo, e tem que rolar, em qualquer situação. Você se prepara, imagina a festa, o público, então é natural a ansiedade pra descobrir se é mesmo da forma que você imaginou. E é dessa preparação que deve vir a segurança necessária para que você se sinta à vontade quando for se apresentar. Existe sempre aquele momento em que você tem o primeiro contato com os equipamentos da festa, com o retorno, com o visual da pista… Isso às vezes pode causar uma introspecção natural nos primeiros minutos, mas tudo flui logo que você se conecta com tudo ao redor.

 

4 - Você é um cara de referências diversas, como hip hop, mpb, jazz, etc. De onde vieram essas influências todas? Como condensar tudo isso em uma apresentação voltada para a música eletrônica?

 

Eu ouvia quase isso tudo desde moleque, mesmo antes de pensar em ser DJ. Em casa minhas primeiras referências foram Stevie Wonder e Sade. Hip Hop peguei mais na fase do colégio, pouco antes das primeiras coletâneas de house e drum & bass que eu comprei (ainda fase pré Napster, tinha que comprar tudo mesmo). Ouvia dance de rádio nessa mesma época também rs… Tudo isso me influenciou, de alguma forma. Curiosamente, só aprofundei minha relação com a música brasileira e com o jazz quando comecei a tocar drum & bass, lá por 99. Enfim, comecei a pesquisar mais sobre as origens daquilo que eu estava tocando, e fui me aprofundando quase que naturalmente em disco, funk, soul, jazz, mpb, hip hop, dub… É música com alma, no final das contas. E a música eletrônica que eu toco, desde o início no jungle/d&b à Detroit e Chicago, tem relação direta com tudo isso.

 

5 - Para finalizar nos conte como foi receber o convite para tocar no Dekmantel Brasil? Você sabe como foi feito o critério de seleção? Conte um pouco dos bastidores desta grande notícia.

 

Apesar de ser frequentador das festas e amigo do crew da Gop Tun, não acompanhei muito dos bastidores, dos critérios... Fiquei sabendo do festival em meados do ano passado pelo Caio Taborda, quando fui acompanhar uma das gravações da rádio Na Manteiga, poucos meses após a Gop Tun realizar uma grande festa no centro de SP, com vários artistas do Dekmantel. Ele basicamente me mostrou uma lista de nomes que pretendiam trazer e disse que eu era um dos DJs nacionais que estavam nos planos. Obviamente fiquei muito feliz em ser lembrado, mas era tudo bem sigiloso, não teria nem como falar pra ninguém. E dali até o convite oficial se passaram alguns meses, então a ficha foi caindo aos poucos rs… O envolvimento do crew do Dekmantel é muito direto, do line up à montagem do festival. Posso dizer que da lista inicial que eu vi, uma parte muito considerável estará por aqui. E praticamente todo o line up é formado por artistas que acompanho de alguma forma. Tô só um pouco ansioso… Falta muito pra sábado? Nos vemos lá!

 

 Foto por Gustavo Remor

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