Guy J e um carnaval imersivo no Garden do templo

Artista israelense protagonizou mais uma noite memorável no Warung Beach Club
Publicado em: 20/03/2017 - 21:43 | Atualizado em: 02/06/2017 - 00:01

 

É inegável: o carnaval do Warung Beach Club tem uma atmosféra própria e reconhecível. Algumas das noites mais marcantes da história do clube ocorreram durante as tradicionais três noites, com as portas da Praia Brava se abrindo para reunir a diversidade cultural de pessoas advindas dos mais variados lados desse país continental. 

Com o objetivo de agradar o maior número de pessoas possível, a formação do clássico sábado (25) de carnaval trazia uma mescla interessante de artistas, desde nomes que estão buscando seu espaço, como Hito, até outros que já foram sinônimo de casa lotada com apenas o peso do seu nome, a exemplo do lendário parte duo do projeto Deep Dish, Sharam. 

A parte principal dessa noite de abertura foi composta por dois destaques que vivem seus auges na carreira e tinham a missão de fazer a noite de todos compensar, ainda que em níveis diferentes. Me refiro ao francês Agoria, que teve o privilégio de encerrar o Inside, e do israelense Guy J, que é a figura central deste review por ser um artista que vem construindo uma carreira sólida e de personalidade musical extremamente alinhada com o que acredito ser o que meus ouvidos mais apreciam, além de estar no seu momento mais estelar. A cada lugar que passa deixa mais e mais novos admiradores. Jogar no carnaval brasileiro era uma grande oportunidade para ele desprender novas mentes, quanto à isso, adianto que não há dúvidas. 

Após algumas alterações de horários atendendo o pedido de muitas pessoas, Guy J foi realocado para o meio da noite, não teria a atmosfera do amanhecer, mas ganhou quatro horas e meia de set. Alguns artistas precisam de tempo para mostrar seu trabalho, esse estilo é conhecido por noites longas e instrospectivas e Guy J é um deles. Para o warm-up foi escalado a sempre interessante dupla da casa, Conti & Mandi. Ao adentrar o club e me digirir a pista, pude notar que a música estava fechada e carregada de elementos, é importante quando os DJs tem a missão de receber o público fazem uma pesquisa musical focada para melhor se conectar com o artista principal, deixando todos no clima ideal. Com mixagens tranquilas e bom andamento, o set deles foi exemplar, quando o israelense chegou para montar suas coisas, todos estavam ansiosos.

Pontualmente à 00:30 Guy J começou seu set chamando todas as atenções para si, foram três minutos de toques de piano e leads viajantes, com um loop de hi-hat de fundo colocando todos em sintonia à esperar com ambição as primeiras batidas. Em seguida, puxando a memória dos mais atentos de suas produções, entra em ação Story of Us, sob seu alter ego Cornucópia o recado estava dado, ele não entraria em muitas delongas. Pode-se dizer hoje que Guy J é o produtor líder da retomada mundial das sonoridades com profundidade e melodia, muito por conseguir personificar de forma unica uma textura macia e intensa, extremamente concentrada em sua própria personalidade. 

O preço de se ter um estilo tão bem definido é o de ter que ser mais direto, perdendo um pouco da construção do set, já que seu som não é tão amplo. Ao mesmo tempo e em compensação, sua música exibe excelência e um dinamismo pouco comparável no cenário comteporâneo, como mencionei no review de sua vinda em 2016, é house progressivo da mais pura classe, ainda que a elaboração durante o tempo não incorpore o mesmo tradicionalismo. Apesar de acreditar que ele não toque em blocos, igual artistas como Dixon e Mano Le Tough fazem, ele assim como os dois nomes citados pensa a pista de dança dentro de uma visão de produtor musical. Não existe demasiada preocupação em construir um set de baixo para cima, e isso não é uma crítica, longe, conseguir fazer todos se manterem conectados subindo até o limite do seu estilo e descendo a intensidade sem deixar de ser dançante é algo admirável. Acredito ser uma maneira mais sofisticada de trabalhar, como se estivesse em um arranjo levemente tribal pelo meio, com variações entre melodias e timbres sombrios por cima, acelerando e cadenciando as linhas de baixo. Guy J exibe isso de uma forma tão natural que não imaginava ser possível dentro deste estilo de som, porém, vale reforçar, sua música sempre tem balanço, groove e movimento que faz todos respirarem conforme sua vontade, e é ai que está o segredo. Suas ondas pelo Garden eram profundas e suas quebradas à beira da praia eram avassaladoras, éramos capazes de nos distanciarmos e logo em seguida estarmos com os pés na areia. 

 

Antes das 02:00 ele já tinha subido o ritmo ao extremo, mixando com sua controladora quatro canais em sequência com enorme destreza e sacando aplausos ainda nas viradas, algo que os fãs de Hernan Cattaneo estão bem acostumados, e assim como o maestro argentino, não temia expor sua transição, ao contrário, fez dela uma de suas maiores virtudes ao deixar que o expectador aguardasse cada momento com entusiasmo. Outra novidade em relação à sua evolução comparando com 2016 é a aceleração do bpm. É fato que uma pista aberta, mesmo não sendo grande, exige maior fluidez, mas seu aumento de velocidade se daria de qualquer forma, se trata de ganho de experiência.

Às 03:00 um de seus últimos lançamentos ganha destaque, "MDQ" era um aviso do que estava por vir. Um dos maiores benefícios de se tocar com o software Traktor é a possibilidade de usar loops, seja com presets ou entre as músicas, abrindo assim um leque de oportunidades quando se tem uma mente criativa, foi assim que magistralmente Guy J conseguiu colocar no auge da noite a música que além de ser uma das minhas favoritas dele, era algo que ainda sonhava poder ouvir novamente no Warung. "Lost & Found" às 03:30 sem perder o ritmo foi subliminar, aí em diante era só seguir, a pista estava vencida. 

Abrindo a última hora ele começou a apresentar músicas mais sentimentais, baixos com notas longas e a incômoda sensação de que logo precisaria parar. Seu lado emotivo, que tanto lhe fez seguidores no início da carreira, estava ali, exposto em pleno carnaval, abrangendo novas mentes que talvez só o tinham ouvido de nome. Para celebrar tudo isso, reviveu um daqueles seus lançamentos que não são tão conhecidos, mas você sempre reconhece que é de sua autoria, "Pathos", lançada pela sudbeat em 2012, colocando todos em imersão. Neste ritmo de despedida, mesmo com a energia recíproca para mais horas de música, ele gentilmente cede passagem. 

Por mais que o tempo passe e as coisas mudem, alguns nomes sempre terão uma vaga no Warung, fizeram coisas demais para a nossa cena e devem ser lembrados, e o iraniano Sharam é um dos poucos que tem esse poder. Inicia sua volta ao templo de forma bem consistente, era evidente que ele iria flertar com o techno, porém, mesmo podendo ser interessante, parecia que todos já estavam sentindo falta do balanço encaixado que Guy J tinha imposto nas últimas horas, então era hora de mudar. A curiosidade em ver Agoria era boa o suficiente para me dirigir à parte da frente do inside. Observando ao redor, notei que todos estavam contagiados com sua música. Mais uma vez, o choque de conceitos musicais falou mais alto, já eram quase seis horas quando comecei a conseguir entrar no ritmo do francês. Ao ver o início do amanhecer, outra oportunidade surgiu. 

Em todos esses anos frequentando o clube nunca consegui abandonar as primeiras fileiras da pista, sempre senti a necessidade de ter aos meus olhos distância suficiente para observar os movimentos do artista, e naquela hora me dirigi a um dos pontos mais emblemáticos do templo, a sacada foi a melhor escolha possível. Receber o surgimento do sol acompanhado de pessoas que estavam ali pelos mesmos motivos que eu, ouvindo Agoria jogar um de seus hinos, "Scala", chegou até nós contrastando com um ensaio fotográfico no horizonte repleto de cores e formas. Mesmo sabendo que a música iria se estender até as oito horas, decidimos tomar o caminho de volta com o pensamento repleto de satisfação, mas desejando o retorno do pequeno gênio no lado de cima. 

Fotos por: Gustavo Remor e Juliano Viana
Videos por: Fernando Hauenstein

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