Jeff Mills: além dos sinos

Nosso residente Eduardo M fala sobre a lenda de Detroit, que volta ao Brasil para apresentação única no Dekmantel Festival
Publicado em: 17/01/2017 - 02:35 | Atualizado em: 17/01/2017 - 21:24

Não há dúvidas de que tocar The Bells em uma pista é algo único, fora do tempo, que não deixa indiferença por parte de ninguém que estiver ali. Pois bem, o pai dessa obra possui uma história ímpar e que se perpetua até hoje.  

Uma das heresias que você observa num artista como o Mills é a maneira de se vestir. Na verdade não deveria ser, mas acaba sendo por um código pré-estabelecido que acabou se criando, com uma uniformização dos que frequentam essa "cena". Imagine alguém da alta entidade do techno de Detroit chegando pra tocar com sapatos bem polidos, calça social, camisa social (para dentro da calça) e talvez até um terno por cima. Daria pra ele colocar uma Bíblia debaixo do braço e entrar em qualquer igreja sem levantar suspeitas! Isso sem falar na sobriedade e seriedade. Outra delas, é o fato dele já ter admitido que não quer ficar passando horas do seu dia ouvindo promos de outros DJs e mandando feedbacks e muito menos que alguém faça isso por ele. Em outras palavras, ele disse: "eu fico feliz que as pessoas me mandem suas músicas querendo um feedback de volta, é como se elas me respeitassem, mas tudo que eu quero é aproveitar o tempo que eu tenho livre e continuar explorando todas as possibilidades de fazer/tocar techno, ver o quão longe eu posso ir". Ele ainda completa: "Nas lojas de discos há músicas que tem todos os componentes certos para cativar o ouvinte. São feitas para vender, não para expressar algo. Por isso acho que 99% do meu set é composto por faixas minhas." Não há como negar que isso não seja um artista de personalidade livre e independente.  

Lá pelos idos de 2000 ele fez uma turnê com o Laurent Garnier chamada "Expect the Unexpect". A ideia era basicamente casar bookings em diversos países com participações especiais em programas de rádio, na noite ou no dia seguinte à gig em algum club. Em ambos espaços, tanto rádio como club, a proposta era que eles tocassem long sets juntos, soltando todas suas referências sem limite algum de alcance. Isso incluía jazz, salsa, reggae, dub reggae, rock, punk rock, drum and bass, hip hop, funk, e CLARO, em algum momento uma pitada de techno com algum clássico Purpose Maker ou AXIS (selos próprios). Isso ilustra pra mim como mais ou menos funciona a cabeça de um cara como esse: a ideia de techno vai muito além do que algum beat de 909 ou timbre de 303, embora ambos sejam icônicos dentro deste estilo. 

Quando você carinhosamente estuda a discografia do Mills, é notável que ele não se limita em absolutamente nada. Já no início da década de 90, se analisarmos dois álbums fundamentais na minha opinião (Waveform Transmission Vol. 1 e 3) já dá pra sacar o potencial de expressão sem limites. 

Quando se ouve hoje em dia caras como Rødhåd e Ben Klock e os considera incrivelmente moderno ou "novo", vale lembrar que a faixa abaixo estava sendo laçado lá em 2004. Na verdade já em 1996 já existiam coisas bem parecidas com isso, salvo alguns pequenos detalhes característicos da sonoridade na época, soa um tanto quanto "atual". Além destes dois nomes, há muitos outros que fazem esse resgate constantemente no meios dos sets, e para os ouvidos menos acostumados passam batidos como alguma faixa dos tempos recentes. 

Eu considero a junção de músicos tocando a apresentações de DJs uma situação de extremos: ou fica incrível, ou fica brega. Digo isso por tudo que já vi até hoje. Pode parecer uma ideia genial e enriquecedora, mas é essencial um belo propósito e respeito mútuo entre os participantes. Imagino ser uma experiência única para um DJ e produtor de techno que, aos olhos de quem está de fora do seu mundo, vive à beira da marginalidade intelectual perto de músicos de uma orquestra

Outro capítulo interessante foi quando ele lançou esse vídeo set (?) - evento não tão comum na época. Quase que um show de voyeurismo. A primeira versão conta com uma apresentação real em 3 decks, propondo o improviso, e a recriação de algo novo a partir de algo existente. É possível ver pequenos "erros" nas mixagens, algo que é totalmente comum e devido a dificuldade de controle neste caso. A ideia é que apareça mesmo, como um processo que ocorre orgânico e humano. 

Além de tudo isso, é muito gratificante ver um artista de referência estar ainda por aí lançando sua expressão sem medo, do fundo da alma, sem a preocupação do agradar ou não o público. Isso tem um valor nobre e provavelmente raro, mesmo depois de tanto tempo de colaboração e tanta renovação de mercado. Acredito que até pelo fato de isso ser tão levado a sério por ele é que esse fato seja possível, correndo por fora da grande cultura do hedonismo pregada nos dias de hoje.

Qual a expectativa para a sua apresentação no Dekmantel Festival? Imagino eu que não será algo padrão, de prazer fácil e entregue pronto que nem pão quente. É pra ir com coração aberto, sem expectativas determinadas, e com respeito a alguém que lançou as bases do que a gente consome e tanto ama hoje. Boa viagem pra todos nós!

Serviço

Dekmantel Festival São Paulo 2017
Local: Jockey Club e Fabriketa
Data: 04 e 05 de fevereiro de 2017
Site oficial
Evento oficial
Ingressos à venda

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