Nicolas Jaar e a cor das romãs

Conheça a história deste que é um dos mais criativos e promissores artistas da música eletrônica atual
Publicado em: 03/07/2015 - 14:47 | Atualizado em: 03/07/2015 - 15:44

Nicolas Jaar é jovem artista, de apenas 25 anos, mas que possui um currículo de dar inveja em qualquer um que respire música. Nasceu nos Estados Unidos e cresceu no Chile, terra de seus pais, antes de retornar a New York. Sua origem faz com que frequentemente seja comparado a Ricardo Villalobos, o que em sua opinião não faz o menor sentido. “Não estou nem perto de atingir seu nível de técnica”, afirmou ao Pitchfork em uma entrevista. “Quando eu era jovem e pegava o metrô para o colégio, gostava de ouvir Thé Au Harem D'Árchimède, de Ricardo, e The Last Resort, de Trentemoller. Com o primeiro eu estava sempre pensando ‘Aonde você quer chegar com isto?’, enquanto que o segundo era fácil de ouvir, como doce. Eu sempre quis fazer um Trentemoller mais experimental e um Ricardo mais melódico” completou.

 

Seu primeiro contato com a dance music, no entanto, foi com DJ Kicks, de Tiga, em 2004. “Quando ouvi eu pensei ‘Que porra é essa? É incrível!’, acabei obcecado por aquelas tracks” confessou. Poucos anos mais tarde já estava esbanjando talento em seu live act, como podemos perceber nesta gravação de 2008, que é muito mais dancefloor friendly do que seu som atual, apesar de já possuir os elementos melódicos e o experimentalismo que posteriormente tornaram-se sua característica.

E foi no ano de 2011 que finalmente veio a consagração, com o lançamento de seu primeiro álbum, Space Is Only Noise If You Can See. A obra é dividida em 14 faixas, mas pode-se dizer que é apenas uma de 46 minutos, já que ela foi criada para ser apreciada como um todo. O disco conquistou elogios e reviews positivos de dentro e fora do mundo da dance music, muito graças ao fato de que a maioria das tracks fugia do padrão de 120 a 130 bpm do techno e do house. Foi neste ano em que tornou-se líder do ranking de live acts do Resident Advisor, posição que seria mantida pelos dois anos seguintes, com ajuda do seu projeto paralelo Darkside, alias sob a qual Nico passou 2012 e 2013 se apresentando, ao lado do guitarrista Dave Harrington. Junto a ele encabeçou a lista de headliners de diversos festivais conceituados, como Sónar e Pitchfork, mas sobrando um tempinho para fazer o que foi considerado o melhor Essential Mix de 2012, na BBC Radio One.

Em 2014 surpreendeu a todos anunciando que o Darkside entraria em um hiato por tempo indefinido, quase ao mesmo tempo em que iniciava os trabalhos no seu novo label, Other People. “Clown & Sunset tinha essa vibe de ser muito conectado a mim. Eu não gostava disso, acabou se tornando uma ‘afiliação’ ao meu som da época do primeiro álbum, cujo qual eu mesmo nem estou mais tão conectado”, conta Nicolas, que completa: “Eu nao estou interessado em ter Other People representando ‘meu som’ dessa maneira”. De lá pra cá rolaram 2 bons EPs, Nymphs II e Nymphs III, mas o que mais chamou a atenção foi Pomegranates, álbum que liberou para download na semana passada. O primeiro contato do público com essas músicas foi no começo do ano, quando ele as usou para criar uma trilha sonora para o filme soviético The Color of The Pomegranates, de 1969. Apesar de Nico nunca ter declarado, vários jornalistas enxergam referências a Angelo Badalamenti em seu gosto por ambiências e trilhas. Alguns reviews de Space Is Only Noise If You Can See apontaram a semelhança, enquanto ele próprio homenageou o ídolo usando um diálogo de Twin Peaks no seu Boiler Room e o nome de uma personagem no título de uma track. 

O mais interessante em Pomegranates é a história recheada de sincronicidade por trás de sua concepção, que foi contada em detalhes pelo próprio em um arquivo pdf que vem junto com as músicas, cujo qual traduzi e transcrevi abaixo:

Olá, 

Eu comecei a produzir a maioria das músicas encontradas em Pomegranates antes de ter visto o filme e até mesmo de saber de sua existência. A primeira música, por exemplo, foi feita no começo do outono de 2014. Eu tinha voltado de uma tour de um ano com o Darkside e estava realmente feliz por estar em casa. Eu estava fazendo música na minha sala quando uma barata começou a dançar sobre alguns dos cabos que estavam no chão. Em vez de matá-la, decidi fazer uma música pra ela. Eu a nomeei Garden of Eden porque eu lentamente comecei a ver a pequena criatura como minha amiga e ajudante, e meu estúdio como um jardim (com todos os cabos!).

A música seguinte foi feita originalmente para um programa de TV. Quando percebi que ele não era exatamente o que haviam me prometido quando assinei o contrato decidi pular fora, o que me deixou com horas de trilha sonora pronta. Eu usei apenas uma dúzia de minutos disso em Pomegranates, ainda não sei o que fazer com o resto! Survival foi originalmente feita para ser a track de fundo para Guetto, uma música que produzi para o DJ Slugo, na qual ele fala sobre crescer em Chicago. Shame é uma batida que eu fiz para um rapper, que foi recusada. No fim de 2014 eu morei com meus pais por seis meses, num período de troca de residências. Eu não tinha estúdio, apenas um piano, alguns microfones e headphones. Foi neste período que escrevi Muse. Volver é a versão em coro de Revolver, uma track que fiz em 2011 e espero que seja lançada neste ano. Enfim, poderia ir adiante contando a história de cada uma delas.

No começo de 2015 meu amigo Milo ouviu algumas destas músicas e me falou sobre o filme. Eu assisti e fiquei estupefato. Eu senti que a estética fez completo sentido com os temas estranhos que eu fiquei obcecado nos últimos anos… Eu estava curioso pra saber como as músicas soariam quando sincronizadas com as imagens, o que se tornou em um trabalho de dois dias no qual eu coloquei trilha no filme todo, criando uma estranha colagem com a ambient music que eu fiz nos últimos 2 anos.

O filme me deu estrutura para seguir e temas para cumprir. Ele deu clareza para estas músicas, que em sua maioria foram produzidas através do caos. Ele me deu também a coragem para publicar… Eu queria fazer algumas exibições, mas o cara que possui os direitos do filme não queria nenhuma versão que não fosse a original por aí. Não posso culpá-lo, tenho certeza que Paradjanov não gostaria de ver uma criança de NY mijando sobre toda a sua obra-prima e chamando aquilo de trilha sonora! Eu a ouvi algumas vezes sem assistir ao filme e acredito que ela consegue viver de forma independente. Pelo menos eu espero que sim! 

Eu ainda estava na casa dos meus pais quando terminei Pomegranates. No dia 1º de março eu cheguei na minha casa nova e ela estava completamente vazia, exceto por uma pequena árvore. O dono estava lá pra me cumprimentar e me perguntou se eu gostaria de mantê-la, pois ele não tinha mais aonde colocá-la e nem alguém a quem dá-la. Eu concordei em ficar e cuidar dela.

Antes que ele saísse, perguntei que tipo de árvore era. Era um pé de romãs [pomegranates]. E ele não tinha a vaga ideia do trabalho que eu estava executando!

Então, aqui está, é sua agora! 

Nico

PS: confira a foto da pequena árvore!

 

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