Tribaltech: mais de dez anos de evolução

Conheça a história do festival que acaba de divulgar seu line-up completo e se confirmar como um dos mais relevantes do país
Publicado em: 21/08/2015 - 19:35 | Atualizado em: 26/08/2015 - 17:04

Em outubro Curitiba receberá nova edição do seu mais tradicional festival de música eletrônica: a Tribaltech. A temática da festa deste ano gira em torno do conceito de Evolução, o segundo capítulo da trilogia que teve o Renascimento ano passado e terá a Fuga (ou seria Libertação?) no ano que vem, no entanto, a história do núcleo mostra que evolução é uma constante em suas edições. Como frequentador assíduo que não perdeu uma sequer desde a minha primeira em 2007, decidi remontar os momentos deste festival que tanto contribuiu para a música em nosso país.

2004 a 2008 - Uma infância no trance

No começo da década passada Curitiba recebia suas primeiras open airs, como Big Fish, Union e XXXperience, rave paulista que era realizada localmente por dois grandes entusiastas da cena que estava nascendo: Jeje e Dudu Marcondes. Foi há 11 anos, em agosto de 2004, que eles deram vida à sua própria festa, intitulada Tribaltech, com a primeira edição realizada no Haras Bom Pastor, em São José dos Pinhais.

Nesta época o line-up era quase todo composto por artistas de psytrance e vertentes, como Bizarre Contact, Sub6 e Eskimo, mas a veia "tech" já existia e não era apenas no título: os italianos do Presslaboys se apresentaram no primeiro aniversário, em 2005, e Trentemoller era uma surpreendente atração de 2006, fato que infelizmente não se concretizou, pois o artista cancelou sua turnê brasileira na ocasião. Nestes primeiros anos também aconteceram edições em Londrina, Toledo e Florianópolis, o que com certeza contribuiu para que a marca se tornasse conhecida fora da grande Curitiba.

Foi a partir de 2007 que a TT começou a tomar ares de festival. Ao contrário dos primeiros anos, agora a festa era realizada exclusivamente em Curitiba, apenas uma vez por ano, o que possibilitou um crescimento considerável, tanto em público como em estrutura. Uma das principais novidades era o surgimento do palco alternativo, concebido para ampliar os horizontes artísticos e abrigar artistas de techno e house. O parque de diversões, que já havia se tornado uma das marcas registradas da festa, estava ainda maior. O sucesso foi tão grande que em 2008 a fórmula foi repetida, com a adição de um terceiro palco, separando o techno do house. Neste ano a Tribaltech recebeu uma de suas apresentações mais marcantes, que mudou a vida e os conceitos de muitos que estavam ali assistindo: o live 100% analógico de 300kg de Anthony Rother. Pela primeira vez aquele público tinha contato com a criação pura e grosseira, em tempo real, um verdadeiro live sem Ableton pré-montado.

 

2009 a 2010 - Uma adolescência multicult

Diante de todo o sucesso recente não só da TT, mas da cena eletrônica como um todo, em 2009 a T2 Eventos resolveu pular de bungie jump pra fora da zona de conforto e fazer uma aposta que mudaria completamente a cara do festival, além de ter sido a semente que garantiu a força do conceito que ela tem hoje. Com a adição de um quarto palco, 100% voltado para sonoridades orgânicas, e a expansão dos outros dois palcos alternativos, a Tribaltech se tornou um verdadeiro festival multicultural, abraçando diversas tribos e se destacando em meio a tantas raves iguais entre si. Nessa vibe multicultural que surgiram as intervenções durante a festa, os paineis de arte plástica e o Cinetech, ambiente no qual foi realizado uma mostra de cinema independente. Neste ano a cenografia também ganhou um upgrade, ao apresentar o Laser Beam Factory pela primeira vez no Brasil, espetáculo visual que viria a se tornar praxe na maioria das festas do gênero em seguida. O line-up também passou a ter mais peso, contando com apresentações memoráveis de Maetrik (atualmente Maceo Plex), Thomas SchumacherMarc Romboy, Gui Boratto, Tigerskin e diversos outros.

Com mais um sucesso na conta, em 2010 foi dado mais um passo ousado: o trance, que até então habitava o main stage, agora teria seu próprio stage alternativo, enquanto o principal passou a ser ocupado por artistas de techno e tech house. Na época a organização fora apedrejada pela decisão, no entanto, a mesma foi copiada por todas as raves de origem semelhante Brasil afora, e hoje não há um fã de psytrance que abra mão do seu espaço próprio devidamente contextualizado. Além disso, esta festa também fora castigada pelo tempo frio e cheio de serração, o que acabou por inviabilizar o videomapping do palco principal, a grande novidade visual que seria apresentada. Somando isso a um line-up que em geral não agradou (à exceção de Green Velvet, Sascha Funke e boa parte do psytrance), a Tribaltech enfrentou sua primeira grande baixa.

2011 a 2012 - Tempo de se reinventar

Após o balde de água fria, ficou claro que deveria ser feita uma reavaliação dos últimos anos, para selecionar os pontos de sucesso e montar um formato sustentável. Isso era tão claro que em 2011 a temática multicult deu lugar ao Reuse, Repense, Reaja, mostrando outra grande característica do núcleo organizador: a transparência com o público. Apesar do formato enxuto, mais uma vez o tempo não permitiu que o sucesso acontecesse: uma chuva constante fez com que o Organic Beat e até mesmo o main stage (que havia voltado para o formato misto de psytrance e techno/house) ficassem "vazios" por diversos momentos. Nesta festa deu sorte quem ficou com a cobertura: o Black Tarj, que recuperaria o espaço principal no ano seguinte, e o Funk You, que conquistou bastante gente que estava tendo o seu primeiro contato com aquele tipo de sonoridades.

Foi em 2012, ano do fim do mundo, que a Tribaltech encarou o que iria ser sua última edição. Depois de muitos altos e alguns baixos, decidiu-se fazer a “melhor de todas as edições”, para sair de cena com a imagem que sempre se quis ter para o festival. O palco principal agora era definitivamente techno, com artistas que encabeçam festivais como Time Warp e Awakenings, o trance voltou a ter seu próprio palco, desta vez, com cenografia e decoração impressionantes, e o house passou a ser assinado pelo Club Vibe, que havia sido incorporado ao ecossistema T2 após reforma realizada alguns anos antes. Como as pessoas só dão valor ao que tem quando perdem, o The End se tornou a maior e mais elogiada Tribaltech da história.

Nesta festa tudo funcionou: o line-up equilibrado e a inspiração de Dubfire e Magda recriaram pela primeira vez o clima de um verdadeiro festival de techno; o pavilhão da Vibe conseguiu transpor o clima intimista do clubinho para as proporções de superclub; a cenografia, localização e contextualização do psytrance fez com que até os mais xiitas se sentissem à vontade no "mini-festival" ali montado; e o tempo ajudou de verdade, com um dia ensolarado e bonito.

2014 - Let's Reborn

O sucesso do formato e a recepção do público foi tanta que o inevitável aconteceu: dois anos depois o festival estaria renascendo, com mais força do que nunca! A edição de 2014, intitulada Tribaltech Reborn, trouxe o melhor do festival de volta à vida, abrindo espaço para inúmeros novas tribos em nada menos do que 12 palcos, que iriam dos tradicionais techno, house e psytrance, até novidades como bass music e breaks. A ambientação atingiu níveis nunca antes alcançado por um festival brasileiro: a cidade temporária tinha diversos ambientes e detalhes a serem explorados, proporcionando uma verdadeira imersão para o reborner.

2015 - It's Time For Evolution

O segundo capítulo da trilogia, a ser realizado neste ano, é mais um salto evolutivo no conceito, como foi em 2009 e 2014. A começar pela duração de dois dias, velho sonho da organização que finalmente está se concretizando. Para tanto, será fundada a Evolution Town, cidade temporária com camping, estrutura de primeira e festa exclusiva para moradores, projetada para receber pessoas dispostas a dar um passo adiante na imersão. Fora desta cidade a quantidade de palcos encolheu, no entanto, o line-up escalado é um dos melhores da América do Sul no ano, em termos de techno e house.

A grande aposta é naquele que garantiu uma manhã inesquecível em 2012: Dubfire, que desta vez, vem com seu live Hybrid, inédito no Brasil. No setor da aula de história, alguns mestres: o representante do house de Chicago, Derrick Carter; o chefão da Dirtybirdz, Claude Von Stroke; e a lenda do techno de Detroit, Carl Craig, que já realizou duas obras-primas no Terraza no começo deste ano e deve ser um dos destaques do festival. A ala europeia também está muito bem representada: a experiência de Roman Flugel; o set mais dinâmico que muito live do frontman da CLR, Chris Liebing; o ascendente e inédito Rødhåd; a aposta em Traumer; a volta de Ellen Allien, um dos cancelamentos de 2014 (ainda acreditamos em um Rother triunfal em 2016 :) ).

Quem procura lives mais complexos e bem trabalhados também terá um prato cheio: um dos grandes nomes de 2014, Mathew Jonson, retorna para duas apreentações: a sua individual e da banda Cobblestone Jazz, que apresenta uma mistura de jazz com techno utilizando diversos instrumentos analógicos e uma expressão ao vivo impressionante. Não tão analógico mas de grande valor também é o live de Stimming, que já garantiu grandes noites no Warung e não deve fazer diverente na Tribaltech. Na ala mais freak agitada dos lives teremos o dOP, que já é um clássico da TT e também tem um cancelamento em a ver com o público.

Com essa verdadeira seleção mundial escalada, o Brasil não poderia ficar mal representado. Por isso, foram escalados bravos guerreiros que lutam para manter acesa a chama da arte num país tomado pela repetição. Stekke, Renato Cohen, Aninha, Boghosian, Eli Iwasa, Gromma, Renato Ratier, Albuquerque são apenas alguns dos representantes do time verde-e-amarelo, que contará tambem com o residente do detroitbr Kultra. As raízes psicodélicas também foram respeitadas: confesso que atualmente pouco conheço deste universo, mas sei que Merkaba, Shadow FX & Tetrameth, Loud, Avalon e Tristán são artistas de muito respeito, sem contar os grandes realizadores da cena nacional, como The First Stone, Circuit Breakers, Fábio Leal Element, que além de ótimo DJ é o responsável pela curadoria do Vuuv Stage.

E com tantas novidades, fica a pergunta: e aquele pessoal que sempre pede mais do mesmo? São volumosos e importantes para fechar o equilíbrio da festa, portanto, foram atendidos. Boris Brejcha, Alok, Kanio, Vintage Culture, Volkoder são alguns dos nomes de destaque que deverão atrair multidões para a festa - nada que uma boa curadoria de horários não resolva. Eu provavelmente fui injusto e deixei de destacar outros nomes merecedores, mas daqui pra frente deixo a lista completa livre para o julgamento de cada um:

Como pudemos ver, a Tribaltech é mais do que um simples festival arriscando um line-up ousado. A Tribaltech é o mais vistoso fruto do crescimento orgânico da árvore da cena eletrônica do sul do país. Ela, assim como nós, passou por erros, acertos, metamorfoses e revelações no longo trajeto trilhado até aqui, e sabe que este ainda não é o topo da linha evolutiva. Dizer que "é hora da evolução" parece redundante após conhecer toda essa história, mas é um grito necessário para que compreendamos a importância do momento vivido e depositemos nossa confiança do fundo da alma, com a certeza de que os dias 10 e 11 de outubro de 2015 serão dias para guardar na memória como marcos em nossas vidas. Eu farei parte dessa história, e vocês?

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