Uma aula de música em pleno carnaval, por Carl Craig

O Terraza Music Park trouxe a lenda de Detroit para duas apresentações memoráveis durante o feriado
Publicado em: 27/02/2015 - 16:14 | Atualizado em: 27/02/2015 - 19:29

No último carnaval o grupo Terraza Music Park trouxe para o sul do país uma das maiores lendas do techno. O primeiro e o último dia do carnaval, em Florianópolis e Balneário Camboriú, foram comandados por Carl Craig, detroitiano com quase 30 anos de história. Seus sets foram recheados de referências históricas, para ouvir cada música que citamos basta clicar na primeira vez que o nome dela aprece no review ;)

Florianópolis

O carnaval começou e as condições climáticas não inspiravam empolgação. Uma chuva intensa castigou o litoral catarinense durante toda a noite, bloqueando estradas e atrasando o início da festa em 2 horas. Era passado de meia-noite quando entramos para conferir o warm up que o residente Ricardo Lin estava fazendo. Diante de toda a situação, a sua história teve que ser encurtada, e ele já apresentava uma sonoridade mais dançante. Em seu repertório, um pequeno presságio do que viria: Knights of the Jaguar (Underground Ressistance), clássico do techno.

Seguindo com a noite, era a vez de Mau Mau. O brasileiro apresentou um som dinâmico e muito dançante, a pista pegava fogo enquanto ele tocava. Em seguida foi a vez de Renato Cohen, que como de costume, soube assumir muito bem a pista deixada pelo colega. Seu set foi mais puxado para o techno e tech house, com bastante valorização para sonoridades mais old school. Enquanto ele tocava vimos um dos momentos mais divertidos da festa, quando Mau Mau curtia na pista, junto com o público.

Era passado das 5 da manhã quando a grande atração da noite subiu à cabine. Ao ver Carl Craig tocar, a primeira coisa que se nota é a sua postura, extremamente séria e concentrada. Cada movimento dele em direção a um knob ou fader parece milimetricamente calculado, assim como seus atos dentro do set, executado em 4 decks, mesclando tracks e samples de maneira impecável. No seu repertório, uma verdadeira aula de história da música e da arte. O seu primeiro momento marcante foi ainda durante a noite, quando sorrateiramente inseriu Also Sprach Zarathustra (o tema de 2001: Uma Odisseia no Espaço) no set, devolvendo o groove para o pista logo em seguida com o seu próprio remix para Use Me Again, de Tom Trago.

Esta primeira parte da apresentação foi predominantemente dançante, tendo até música do Maceo Plex sendo tocada de uma forma surpreendente. Com o amanhecer clássicos como Behind The Wheel (Depeche Mode), J.A.N. (Moodymann) e Knights of the Jaguar (The Aztec Mystic) em versão remixada sem batida davam a impressão de que o set iria acabar, mas quem conhece o Terraza de Florianópolis sabia que a festa iria longe ainda.

E foi a partir daí que o set atingiu níveis de genialidade que somente um artista com a bagagem de Craig poderia proporcionar. A primeira grande bomba foi Lovely Day, um soul dos anos 70 que deixou a pista sem entender nada, mas empolgada e dançando, principalmente diante dos primeiros sorrisos e gestos mais soltos do maestro da noite. Quando a música acabou, muitos aplausos, interrompidos pela famosíssima melodia de Seven Nation Army, do White Stripes. Desta vez a perplexidade do público foi tanta que Carl pegou o microfone pela primeira e única vez na noite e justificou em apenas uma frase: “Vocês talvez não saibam disso, mas esta é uma genuína música de Detroit”.

 

Nos minutos que se seguiram, pode-se ouvir não um dos milhares de remixes fanfarrões que esta pobre track possui, mas sim um simples edit, bastante fiel à versão original, mas com um final mais energético, que foi a ponte perfeita para que ele voltasse para a tradicional batida reta 4x4 a ~120 bpm, e prosseguisse com a segunda parte do seu set. Deste momento em diante, o clima era outro, ainda mais intenso. A pista estava completamente entregue, nas mãos de um Carl Craig sorridente e nitidamente feliz por estar tocando ali. Ainda houve tempo para outros picos, como quando o remix dele mesmo para Your Love Will Set You Free, de Caribou, foi tocado, ou no finalzinho, quando o remix de Ricardo Villalobos para Everywhere You Go emocionou cada um dos presentes.

 

Era quase 8:30 da manhã quando a festa acabou. Sem fôlego e com a alma lavada, toda a legião detroiter saiu do Terraza satisfeita por ter presenciado um dos melhores sets do estilo já apresentados no país, e triste por saber que ainda era o segundo dia de carnaval e dificilmente outra coisa nos surpreenderia novamente.

Balneário Camboriú

Depois de quatro dias de muita música e diversão, ainda havia uma reserva de energias para acompanhar o ídolo em sua segunda gig na região, no Terraza BC. Infelizmente o costumeiro recesso da quarta-feira de cinzas não aconteceu neste ano, fazendo com que a festa tivesse um público reduzido (o que pelo menos garantiu uma pista menos apertada e mais interessada). A festa começou com Antonela Giampietro, e a residente da casa mais uma vez mostrou que warm up não é a sua praia. Seu set foi dançante e construído com boas tracks, mas inadequado para o horário. Pontualmente as 2 da manhã nosso residente Danee assumiu a pista, e começou a história novamente do zero.

Preparar a pista para um grande artista é uma das especialidades de Daniel, que já executou este trabalho com louvor para artistas como Hernán Cattaneo e Troy Pierce no Warung. Para esta festa no entanto, houve uma preparação especial. Carl Craig é uma de suas maiores referências na música, tocar antes do ídolo era uma tarefa na qual ele não poderia dar menos que seu máximo. E o resultado foi digno de todo o esforço: conquistou a pista em poucos minutos e com uma construção progressiva e cadenciada, sem hits ou tracks coringa, conduziu a pista para o estado de espírito adequado para receber a obra que viria a seguir. Pontualmente às 4 horas da manhã o americano já estava no palco, e assumiu o posto sob fortes aplausos do público.

Bem, para quem estava em Florianópolis é claro que a emoção não foi tão grande - o que não significa que o set pecou em qualidade. A construção foi diferente: em BC Craig explorou menos clássicos e hits, e apresentou uma sonoridade mais housada. No entanto a hipnose da pista era semelhante à de quatro dias antes, e alguns momentos chave foram repetidos, como o tema de 2001, Conjure Superstar e Depeche Mode. Uma das novidades desse set é que Knights of the Jaguar não foi tocada, mas o seu papel foi desempenhado por outro clássico: um remix desconhecido para Black Water, do Octave One com vocais de Ann Saunderson. Outra novidade é que aqui, infelizmente, o climax do set marcou mesmo o seu fim: a track Lovely Day foi tocada poucos minutos antes da festa acabar, mas não sem antes dar brecha para momentos de deixar a pista com cara de espanto, como com um dubstep de deixar qualquer Skrillex no chinelo.

 

Neste momento já era quarta-feira, e ao sair do Terraza BC custávamos a acreditar que o carnaval havia acabado. A satisfação era imensa, pois estas duas memoráveis apresentações de uma lenda detroitiana coroaram um feriado marcante para cada detroiter que reside na região.

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