Uma noite marcada pela dualidade de gerações no Warung

A estreia de Guy Mantzur e o retorno de Nic Fanciulli ao Templo
Publicado em: 05/05/2017 - 16:07 | Atualizado em: 08/05/2017 - 14:52

O primeiro semestre de 2017 vem sendo marcado pela retomada do reconhecimento musical no estilo que possivelmente melhor representa a identidade do Templo. Artistas como John Digweed, Guy J, Hernan Cattaneo (Warung Day Festival) e Guy Gerber se destacam nesses primeiros meses do ano com respaldo total do público, que por sua vez, tem sido solícito em relação a nomes com capacidade de retratar sonoridades com maior profundidade, emoção e sinergia na praia Brava. No último dia 21 foi a vez de Guy Mantzur fazer sua aguardada estreia. Ele era um dos djs que mais obteve pedidos nos rankings de comunidades em rede sociais independentes que  circundam a marca Warung. Sua notoriedade pela América do Sul ganhou expressão ao nível de colocá-lo como headliner em longsets nos melhores clubes argentinos, como The Bow. Aproveitando mais uma tour do produtor, o templo tratou de finalmente apresentá-lo no pistão.

Mantzur faz parte de uma maravilhosa geração de produtores israelenses ­­­- principalmente advindos de Tel Aviv - que foram alavancados por expoentes como Hernan Cattaneo e Nick Warren no primeiro momento e depois atráves da gravadora Lost&Found, sendo hoje talvez a label que detém o maior domínio e representatividade sob o que é chamado de ‘’novo house progresssivo’’. Aproveitando outra tour importante por nosso continente, o club renovou laços com o consagrado DJ Nic Fanciulli, outro nome que conseguiu se reinventar nos últimos anos, voltando a frente da cena global. Seus back to backs com Carl Cox e Joris Voorn, além de seu próprio festival – The Social – tem chamado muita atenção, principalmente por aqui. Após oito anos o inglês estava de volta, e por uma lógica hierárquica, recebeu a honra de fechar o Inside.

A pista do Garden estava recebendo ainda outro DJ de referência. O nova-iorquino Dennis Ferrer era um dos poucos lendários que ainda faltava debutar no clube, por isso merecidamente lhe foi concedido o enceramento. Mantzur recebeu iniciais duas horas e meia de set no inside e mesmo sob manisfetações de insatisfação por boa parte dos seus fãs, a curadoria permaneceu fiel aos princípios de respeito à história de cada um dos seus convidados. Minha visão e entendimento de como funciona a escolha de onde cada artista deve se apresentar é alinhada com a ideia de respeitar o tamanho de cada artista, porém, como no caso de Guy J no carnaval, que mesmo tocando antes de Sharam, recebeu quatro horas e meia de set, entendia-se que Mantzur merecia um pouco mais de tempo para exibir sua música, mesmo em uma estreia. Entendimentos ou não a parte, não hesitei em ir conferir dois artistas que estavam há bastante tempo em minha lista de interesses musicais.

Perto da meia noite eu já estava conferindo o set de Edu Schwartz no Garden. O catarinense tem um bom e refinado gosto, entende bem o que é preciso para fazer uma pista ganhar tamanho. Sua linha de house mostrava por que ele tem sido uma constante nos line-ups do clube, ele é capaz de moldar-se a diferentes estilos que podem vir a seguir. Curtimos seu set até o limite do horário onde Guy Mantzur começaria. A 1h00 quando chegamos no inside, ele estava quase assumindo o comando. Minha primeira observação era sobre qual setup usaria e logo percebi o laptop sendo aberto. Assim como Guy J, Mantzur prefere abrir mão do CDJ para explorar as possibilidades do software Tracktor em quatro canais. Sua entrada foi carregada de efeitos, e as primeiras músicas proporcionaram aquela sensação de que finalmente estávamos ouvindo algo com conteúdo elevado.

Desde os primeiros minutos Guy não escondia sua emoção de estar finalmente comandando o famoso Inside do Templo. O clube não estava lotado, em ambas as pistas era possível aproveitar sem muitas preocupações. Após a primeira meia hora, Mantzur eleva o ritmo e começa a mostrar qual seria sua proposta para a noite, a vontade de tocar músicas que sempre imaginou ali era tamanha, que ele corajosamente largou a construção do set e começou a jogar diversas faixas muito conhecidas do público que acompanha esse estilo.

O final da primeira hora foi marcado por "Children With No Name", em parceia com Khen, e o remix de "Push Too Hard". Em seguida as sempre intrigantes "Skywalker" e "Drops Classic" de Guy J. Um verdadeiro show de clássicos do estilo mixados de maneira inteligente e sem perder conexão com todos.

Próximo das 3h00, na metade do set, surpreendentemente entra em cena uma das minhas músicas favoritas nos últimos anos, uma obra sem precedentes que é capaz de emocionar a qualquer momento: "Trigonometry" de Sasha foi a escolhida para ser a quebra regras da noite. Logo depois uma de suas produções de maior sucesso - "Systematika" - faixa que todos já ouviram diversas vezes, mas que sempre tem um gosto diferente pelas mãos do criador.

Eu nunca fui admirador de djs que não se preocupam com a sequência linear do set, porém, devo destacar que Mantzur conseguiu fazer isso sem deixar ficar chato e cansativo, mesclou faixas super populares com outras instrospectivas. Correndo para hora final, ele apresentou alguns sons que mostraram até aonde abrange sua ideia musical, a exemplo da sempre impactante "Interestelar" de Victor Ruiz, minha produção favorita do brasileiro.

Às 3h30, nem sinal de Nic, o israelense então começa a desacelerar bem lentamente até buscar sua mensagem final na magia de "Epika", música em parceria com seu conterrâneo Roy Rosenfeld. Mesmo ganhando mais meia hora de música, o sentimento era de que ele ainda teria mais a mostrar. A boa notícia é de que já houve promessa por parte de diretoria do clube que na próxima será proporcionado mais tempo a ele.

Nic Fanciulli tinha à sua frente uma pista pronta, quente e sedenta por mais. Durante a semana da festa, comentei com amigos que minha expectativa por seu set seria a de ver ele jogando músicas em um mesmo sentido de quando fez b2b com Sasha, uma sonoridade limpa, porém com elementos capazes de manter a pista conectada.

Nic iniciou com muita personalidade, sua maneira de tocar e mixar são admiráveis, porém acredito que ele perdeu uma grande oportunidade em não ao menos tentar procurar músicas que tivessem um pouco mais de elementos, podendo buscar referências em produções de caras como Nick Curly e Gorge, que estão dentro de seu estilo, podendo assim reconquistar um público que deixou para trás há mais de oito anos. Sua linha de techouse com momentos disfarçados de techno tinha ritmo, era rápida, dançante, mas era perceptível a carência de mais conteúdo que o público sentia, ainda eufóricos pela apresentação anterior. Com mais espaços para curtir, tentei esquecer um pouco o lado analítico e me despreocupar com as questões do que o artista pode ou não apresentar.

Assim, em alguns momentos tivemos boas experiências em seu set, destaco a incrível faixa "Uncompromising" de Adana Twins, uma das mais tocadas no mundo hoje, e que proporcionou o poder esperado na pista do Warung, meu desejo na hora era de que ele pudesse manter o mesmo estilo. Depois das 6h00, poderia destacar "Domino" de Oxia, com recente reinterpretação de Frankey e Sandrino, mesmo sendo um clichê, aquela altura, ouvir algo atmoférico e conectivo, foi um alívio, de fato caiu bem.

O amanhecer foi cinzento, saímos debaixo de chuva, um daqueles Warungs fora de temporada que você vai recordar ocasionalmente e se dar conta no mesmo instante o quanto gosta de determinado estilo de música, seja ele da primeira ou segunda parte, aos presentes: façam sua escolha.

Deixe seu comentário